Homenagem à Sílmia

Glaucia Nagem

Talvez muitos não a tenham conhecido, e alguns não se lembrem dela. Por isso, vale uma apresentação que inclua um pouco de sua biografia. Encontrei um artigo escrito por historiadores sobre o papel político de Sílmia Sobreira no período da ditadura. Um estudo derivado de uma pesquisa de mestrado baseada em seus próprios escritos. Antes de chegar à psicanálise, Sílmia era educadora, articulista de periódicos e ativista política na região do Cariri. Entre 1966 e 1967, como articulista da Tribuna de Juazeiro, ela publicou “um sem-número de artigos denunciando a ditadura, revelando vivamente o papel do imperialismo estadunidense na América Latina e, igualmente, esgrimindo em amparo da arte, cultura e educação”. Em razão dessa coragem intelectual e de seus escritos foi sequestrada, presa e torturada.

Trago nesta homenagem algumas palavras de Sílmia desse período:

            Como criticar a ordem social presente, nossa inserção em um mundo capitalista de escaladas, como criticar o fato de ajudarmos às nações ricas a ficarem mais ricas à custa da nossa pobreza crescente, nossa inconsciência e nosso sono que, desde o século passado, nos colocam às margens das reformas que nunca houve nem com a independência, nem com a República, nem em 1930, nem em 1964? Quem dirá que nunca houve revolução porque nunca houve reforma de estrutura e que mudança de cúpula sem participação popular não é revolução? Quem dirá sem risco que capitalismo não é sinônimo de democracia e pode ser até mesmo seu contrário? Quem denunciará a utilização desonesta dos sentimentos religiosos do povo que, dopado com o ópio de uma falsa religião, passa a defender o que pode ser tudo menos um valor cristão? Quem dirá que “a marcha da família com deus pela família e pela liberdade” foi organizada por uma empresa publicitária?

A força de suas palavras e o rigor de seu pensamento fizeram com que ela passasse, como tantos outros nesse período, pelas farpas da ditadura e pela violência do terrorismo de Estado. Nós, que tivemos a oportunidade de compartilhar alguns momentos de conversa e convivência, pudemos testemunhar que, mesmo com o passar do tempo e a entrada da psicanálise em sua vida, ela manteve esse mesmo rigor e firmeza durante os anos de sua formação como psicanalista.

Em 2014, Sílmia conversou com a organização do livro “Escritos de Saussure” sobre sua leitura desses textos. Além de demonstrar sua agudeza nas respostas, foi uma conversa doce em suas lembranças de infância, tensa ao recordar os anos de chumbo e animada quando o assunto era a psicanálise. Ela entrou na faculdade de psicologia como educadora e saiu de lá psicanálise. Foi nessa instituição que teve aulas com Helena Bicalho – que, segundo Sílmia, introduzia Lacan a partir da leitura de Freud, marcando o que havia ali de linguagem, uma vez que naquela faculdade era proibido falar abertamente de Lacan. Conta que, ao concluir o curso, montou um grupo de estudos com Helena Bicalho e passou a acompanhar as aulas de Luiz Carlos Nogueira na USP. Nessa esteira, participou da Biblioteca Freudiana e, na sequência, fundou com esses colegas e alguns outros o movimento da IF-EPFCL.

Quando encontrou a psicanálise, Sílmia já trilhava uma estrada que lhe servia de suporte, um alicerce que vinha menos do curso de psicologia que fez e muito mais dos anos que esteve envolvida com a literatura, cinema, artes e política. Em torno de uma mesa de café, contava que, nos anos em que esteve estudando em Paris, investia toda a sua bolsa de estudos em sessões de cinema e na compra de livros. Contava, de forma divertida, as suas várias viagens feitas pedindo carona pelas estradas da Europa. Essas conversas, as lembranças e os comentários eram sempre muito animados.
Algumas vezes íamos a exposições em São Paulo e ficávamos conversando. Era esse o clima de quando nos aproximávamos dela. Podemos dizer que a psicanálise a encontrou nessa estrada. Toda a sua leitura e experiência de vida permeavam sua escuta atenta e seus cortes certeiros. No tempo em que eu ainda estava em seu divã, era comum ouvir de outros colegas, que também eram seus analisante, a mesma percepção: a de que Sílmia era fiel à sua origem sertaneja, cortava as sessões com a destreza de um facão.
Além de participar do começo do movimento dos fóruns, Sílmia Sobreira, iniciou, ao lado de Helena Bicalho, uma articulação importante em Ribeirão Preto, interior paulista. Não apenas clinicou por muito tempo nessa cidade, como também ministrou seminários e proferiu conferências na USP Ribeirão. Foi ela quem deu início ao que até hoje fazemos com o “Fórum no Interior”, em que o Fórum São Paulo se desloca para as diversas cidades onde residem seus membros. Sílmia também esteve à frente das Formações Clínicas do Fórum SP, dedicando-se à transmissão e à sustentação da psicanálise por onde passava.

Enquanto estivermos nesta casa, mantendo esta praça, que se mantenha em nossa memória essa psicanalista que muito nos ensinou sobre a firmeza e ética que orientam o desejo do analista. Sua generosidade e delicadeza eram presença constante no trato com quem a cercava. Saiu do fórum em um momento delicado, no entanto, algo dela permaneceu na medida em que guardamos as marcas de sua história e de sua transmissão. Esse falar firme e delicado ao mesmo tempo. O levar a sério a posição que se assume em cada função. E a manutenção das amizades a cada vez e a cada encontro. Ela está na história da resistência à Ditadura no Brasil, na dor de sabermos que sofreu os horrores do Terrorismo de Estado, na história da fundação da Internacional dos Fóruns, nas marcas das análises e supervisões que conduziu e nas memórias de todos nós que convivemos com ela.

Sílmia, Presente!